sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sempre fui mal-educadona ou da arte de bem espantar as vizinhas metediças!

Eis que, estando no remanso da casa dos papás, a desfrutar de uma tarde de dolce far niente como manda a lei - atracada a um gelado e a empanturrar-me de TV de mau gosto - oiço rumores no quintalejo. Bisbilhoteira como só eu, aproximo-me ao de leve da porta e dou com mamãe a travar diálogo com uma velinha amorosa (not!) sobre a minha pessoa.

- Velinha desdentada e surda: Então quando se casa a cachopinha?
- Mamãe que dá trela a qualquer uma: Quem está casadoira é mais nova. Esta não quer saber disso. [Cuido que na verdade queria dizer: Desta ninguém quer saber.]
- Velhinha: Mas, Jesus Maria e José*,  já ia sendo tempo, não? Então quando é que se casa??
- Maria Chervisqueira (encostada ao ombral da porta): Estamos muito curiosas, hein? Por falar nisso, e a senhora quando é que morre?

Num sei bem, mas é capaz que o facto de a senhora nunca mais me ter dado a saudação tenha alguma coisa a ver com isto...

*A interjeição religiosa diz-te alguma coisa, LV? ;-)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Só visto porque contado ninguém acredita!

Começou por me perguntar se ando a dormir bem. Não fosse a idade respeitável do senhor, tinha levado com uma resposta daquelas! Estranhei a abordagem mas, Deus sabe, já nada me surpreende. Vai daí põe as mãos em cima da minha cabeça como o senhor padre faz na missa para abençoar o cálice e declara que tenho os chakras fechados! Mas há quanto tempo vos ando eu a dizer que tenho os chakras desalinhados? Pode ser que assim comeceis a acreditar em mim e penseis seriamente em me enviar para um templo budista, digamos, na Índia, para ver se a coisa se alinha. Só eu sei o que estou precisada que me abram os chakras! Só eu sei!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Com amigos destes ainda me admiro com a sorte que (não) tenho?

Indo eu, indo eu a caminho já nem me lembro de onde, no meu bólide, com o amigo L., eis que paramos no semáforo vermelho. Nos entretantos começa a ouvir-se aquele bip-bip típico de sinalização de passadeira. É então que todo um mito - o de que só me dou com gente inteligentérrima e atenta - cai por terra.
- Amigo L.: Que barulho é este?
- Maria: É o bip-bip para os cegos. 
- Amigo L. (muito inchado, como se tivesse descoberto a pólvora): Mas, Chervisqueira: os cegos não conduzem! Dahhh!

Sim, não parece mas o L. é um múdo espertalhaço e fez a quarta classe. Tem dias, coitado. Tem dias!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O dia do meu Aniversário é quando eu quiser!

Gosto de acreditar que o tempo traz sabedoria, coloca as coisas no seu lugar, desfaz a bruma que tantas vezes nos tolda o entendimento de certas realidades. Eu gosto cada vez mais de fazer anos. Celebrar a Vida. O estar Viva. O ter comigo as pessoas que me fazem sorrir e para quem o meu sorriso faz sentido.

Os dois últimos anos foram para mim, à semelhança de tantas outras pessoas, difíceis do ponto de vista profissional e, consequentemente, pessoal. Mas, aos tropeções, com sobes e desces constantes, com desalentos regados a lágrimas, eis-me chegada aqui, a mais um ano e, mais do que nunca, grata. Grata pelos pais que não são meus e que sempre me acarinham como se eu fosse mais uma da família. Grata pelas palavras que me chegam em cartas e postais e que vos trazem até mim como se a distância se tornasse menor e o tempo não tivesse passado. Grata pelas dádivas diárias, sob tantas formas. Grata pelas horas de paciência a ouvir-me refilar. Grata pelos lenços de papel. Grata pelas risadas pela noite fora. Grata pelo carinho e desvelo constantes. Grata pelas sms que me iluminam o dia. Grata pelas oportunidades, pelos convites, pelas aprendizagens. Grata pelas adopções, por as casas onde me sinto em casa também. Grata pelos Amigos(as). Grata pela família. Nunca tanto como este ano senti que mais ninguém no mundo poderá nunca dar-me colo como me dão os meus pais que são, indubitavelmente, os melhores do mundo.

Hoje completo mais um ano de vida, mais completa também por me saber querida por corações tão grandes.

Parabéns a mim! Parabéns a Vós que, literalmente, me aturais.

Maria Chervisqueira, a azucrinar-vos a vida desde 1982! ;-)

Acabou-se o que era Dulce.*

Dias antes despedi-me dela. Estava sentada no sofá e tinha um ar mais cansado do que o normal. Dei-lhe dois beijos, um abraço e garanti-lhe que dentro de dias lá estaria, na cidade dos estudantes, como sempre, para a visitar. Vivi nesse momento uma sensação que nunca mais experimentei: senti que aquela era uma despedida. Disse à minha mãe que nunca mais a veria e ela respondeu-me apenas que era um disparate pensar assim. Já andávamos nisto há tanto tempo. Era apenas mais um dos infinitos tratamentos. De tantos momentos, tantos anos depois, esse é dos poucos que me continua a deixar com um nó na garganta e que ainda me assusta. Eu sabia. Não sei como. Sabia.

Voltei a falar com ela, por telefone, dias depois. Era o meu aniversário e fez questão de me ligar. A voz a fraquejar. Insistiu com a filha para que me telefonasse, queria dar-me os Parabéns. Sei onde estava, com quem, como estava o céu, quando atendi. É engraçado como às vezes congelamos momentos sem darmos por isso. Prometi-lhe que a veria em breve. Quase cumpri. Morreu na madrugada em que era suposto despedirmo-nos. E nunca chegámos a ver-nos de novo. Eu sabia.

Já passaram muitos anos. Festejei outros tantos aniversários. Já falo dela sem chorar e as saudades já doem menos. Mas, invariavelmente, involuntariamente, lembro-me daquele telefonema, daquela despedida e há algo em  mim que sempre se inquieta com o reacender deste sentimento, deste medo da finitude, da nossa pequenez, da injustiça, do carinho desmedido. Este ano prometi a mim mesma, que quando essa memória chegar - porque sempre chega - vou sorrir. Porque dela só tenho boas recordações.

Tantos anos depois apaguei finalmente o número de telemóvel dela da memória do meu. O desgraçado sofreu um reset involuntário.ia sendo hora..

*Título roubado ao A.L.A.