sábado, 31 de agosto de 2013

Aforismos cá dos meus.

A leitura está para mim como a lasanha para o Garfield. Não é que consuma doses massivas (antes fosse!) mas detesto, odeio, abomino que me interrompam quando estou a ler. Fico piurça!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sherlock de trazer por casa.

Volta e meia os meus dias ganham outro colorido pela mão de pessoas que nem conheço e que acham por bem partilhar comigo as suas divinais teorias.
 
«Eu esitve a pensar, menina, e olhe que para os fogos começarem a horas tão impróprias, aquilo só pode ser obra dos terroristas. Que eles estão em todo o lado, não é só na América!» Como diz a D. a questão das horas impróprias deve-se, certamente, ao jet-lag.
 
«Porque eles estão sempre a dizer na Televisão que aquilo é obra de pessoas que são doentes mentais. Ora, não hão-de ser todos doentes mentais. Eu cá não sou. A menina também não é, pois não?» Quanto a ele não sei, mas no que me diz respeito ainda está por confirmar e aguardo o resultado dos exames médicos.
 
«Eu até disse ao Senhor Comandante dos Bombeiros: vocês não têm mais remédio que não pegar nos carros, nos camiões e irem os Bombeiros todos deste país, manifestar-se para a frente da Assembleia da República! Mas o Senhor Comandante disse-me que nesta altura, com tanto para fazer, não se podem pôr com essas coisas. E as pessoas, das aldeias e assim, até podem levar a mal não, é
 
Como dizia a minha avozinha: cada cabeça sua sentença. Eu tenho para mim que este senhor a comandar os destinos do país durante um par de dias era coisa para não resolver nada, mas que animava a malta garanto que animava. Só eu e Deus é que sabemos a dor que se me pôs no externo ao tentar controlar as gargalhadas sonoras que a conversa do senhor me merecia.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Tio Mateus.

A neura que me causava, senhores!, eu a querer ver TV e ele a ressonar, tipo caterpillar em trabalhos de desaterro. A fingir um tropeção lá lhe batíamos no ombro. Outras vezes, brincadeira de meninos, atirava-lhe com o chapéu. Acordava. Era ainda pior! As perguntas: Quem é este que está na televisão?, O que é aquilo que acabam de mostrar? Eu a atirar olhares que eram dardos certeiros aos meus pais que nada faziam para aliviar o meu sofrimento. Depois aquela mania de se sentar mesmo em cima da lareira, privando-nos parcialmente do calorzinho que emanava das chamas e ainda perguntando porque tínhamos nós calor se ele estava tão quentinho. E, às duas por três, aí o tínhamos, novamente a ressonar. Quem se não o Tio Mateus? Com o tempo amadurecemos ambos. Ele a caminho do "outono do patriarca" (como no livro do Márquez), eu a caminho da Primavera florida da juventude. Aprendi a desfrutar das conversas, a gostar da companhia, a achar graça às perguntas de uma pessoa com parca instrução. Contou-me que um dia, cansado de andar de mota para aqui e para ali «a fazer negócio», decidiu que estava na hora de tirar a carta de carro. Do dizer ao fazer foi um tirinho e mal se deu conta estava de abalada para Lisboa. A capital deslumbrou-o com o fervilhar de vida nas ruas, com os carros nas avenidas, com as moças bem vestidas e os senhores arranjados com quem se cruzou. Teve a primeira aula. Regressou a casa no dia seguinte. «Que a confusão era muita, que era só carros a cruzar de um lado e de outro, que não se podia dormir na Pensão com tanto carro toda a noite a fazer barulho nas ruas...» Imagino o bulício que deveria ser Lisboa nos anos quarenta. Uma Nova Iorque, pela descrição! Suponho que ter tido um acidente no primeiro dia de instrução nada tenha a ver com o facto de ter antecipado o regresso. No dia em que me contou isso, nos dias que se seguiram e me relatou tantos outros episódios que me arrancaram sorrisos e até gargalhadas, creio que entendi finalmente que as pessoas, todas as pessoas, têm em si riquezas imensas, histórias várias, sentimentos, tudo partilhável. E percebi que a impaciência que me causava aquela presença, outrora imposta e agora desejada, se justificava pela minha meninice. Da mesma forma que, suponho, muitas vezes o devo ter irritado, incomodado com as minhas brincadeiras de miúda.
 
Era um homem forte, de aspecto rude, dos que a gente não vê pisar a soleira da Igreja mas de quem intui que em privado vai acertando as suas contas com Deus. Com um coração bom que deixava entrever de quando em vez, em raras ocasiões. Sei, pelo meu pai e tios, que era na casa dele que encontravam sempre a gaveta do pão cheia de fatias à espera dos miúdos esganados de fome, que pela Páscoa lá lhes tinha umas botas novas e pelo Natal as laranjas costumeiras. Dele contava-me o pai que sempre fora brioso, que gostava de andar arranjado, de usar fato em ocasiões especiais. Anos mais tarde, quando doente, o pai fazia questão de o escanhoar, como se ter a barba feita e apresentar-se aprumado lhe conferisse mais dignidade na doença. Gostava da mãe como de uma filha que nunca teve e de mim e da mana como se netas fôssemos. Quando estive na Faculdade, a cada abalada despedia-se em tom despachado, como quem não dá confiança. Mas não arredava pé lá de casa enquanto a mãe não lhe dissesse que já tínhamos chegado a casa e que a viagem correra bem.
 
Morreu. Inesperadamente. Os sobrinhos levaram o caixão em ombros e quando o desceram à terra creio que vi o meu pai chorar pela primeira vez em público, dizendo ao meu tio: «Era como o meu pai». E eu chorei também porque percebi o quanto era querido por alguns de nós, como se parecia impor nas nossas vidas quando afinal esteve sempre naturalmente lá. As primeiras memórias que tenho de mim, de todos é com ele também, ainda na cozinha de cima, sentado em frente à TV, com aquele grosso casaco que me lembro de lhe ter conhecido toda a vida a cobrir-lhe os ombros e... a ressonar. Que nervos me causava então, interrompendo com aquela chinfrineira a novela das nove. Como poderia eu saber que nunca comprou uma televisão para a casa dele porque essa era a forma de estar mais vezes connosco, a sua família, de tomar conta de nós, sempre vigilante, sempre atento, no seu jeito de ser curioso; que essa era a forma de estar connosco, que éramos mais jovens e tínhamos coisas para lhe ensinar e com quem podia rememorar carolices dos seus tempos de juventude?
Há-de estar a fazer anos que nos deixou. Quando for a casa eu e o pai já combinámos ir tratar-lhe da sepultura. Não faz sentido que um homem brioso como o senhor esteja lá naquele aparato, desarranjado. Saiba que me causou vários ataques nervosos, mas sempre que, como hoje, me lembro de si, - e olhe que são muitas as vezes - tenho imensas saudades suas, ti'Mateus. E até de tudo o que não teve tempo de me contar.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Família: uma Gaiola ou um Ninho?

 

O melhor d’ A Gaiola Dourada não são as interpretações maravilhosas de um punhado de actores soberbos, de onde se destaca a Rita Blanco.
O melhor d’ A Gaiola Dourada não é estarem lá escarrapachadinhos de modo divertido todos os estereótipos e todos os preconceitos que teimamos em cultivar em relação aos emigrantes.
O melhor d’ A Gaiola Dourada não são os cenários exagerados, onde abundam as Nossas Senhoras de Fátima e os Pastorinhos, os emblemas do Benfas e as bandeiras nacionais, bem ao jeito da «ditadura do General Alcazar» - Fado, Futebol e Fátima.
O melhor d’ A Gaiola Dourada não é o argumento que joga com a língua, divertido, sensível, que emociona e diverte, que põe a nu fragilidades das relações e da condição humana.
O melhor d’ A Gaiola Dourada é ver na tela a minha própria família. Reconhecer na personagem da Rita e do Joaquim os meus próprios pais: altruístas, trabalhadores, esforçados, com uma vida construída a pulso. Ver na personagem da Maria um pouco de mim mesma: espaventosa e desbocada. Ter um déjà vu na cena das almoçaradas de família, rebuliçosas, barulhentas, de mesa farta e com toda a gente a falar alto e ao mesmo tempo. Talvez por isso - por o melhor d’ A Gaiola Dourada ser um pouco o retrato  estereotipado e exagerado de mim e dos meus, das formas enviesadas de gostarmos e de tomarmos conta uns dos outros e por isso me ter deixado a pensar no verdadeiro sentido de se ter e se ser uma família - saí da sala de cinema de sorriso nos lábios. C’est si bon!