sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Dicionarizar #3

Gente: não se diz «Eu namoro COM a Maria.» [Queríeis!]
Diz-se: «Eu namoro A Maria.» Se namorarem com a Maria, o Manel, a Engrácia ou o Pancrácio quer dizer que namoram a Joaquina e levam a Maria, o Manel, a Engrácia e o Pancrácio a fazer de vela, entendeis? Basta pôr essas cabecinhas lindas a pensar um pouco para perceber que faz muito mais sentido e é muito mais romântico: namorar alguém, enamorar essa pessoa... Esmerai-vos, fazendo favor. Hoje e todos os dias, que isto do Dia de São Valentim é coisa para dar trabalho 24h por dia, 365 dias por ano.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dura lex, sed lex!

O assunto "praxe" está para mim, em termos de importância e espaço para discussão, mais ou menos, ao nível das touradas: eu tenho uma opinião, admito que cada um tenha a sua, respeito e espero igualmente ver a minha respeitada. E, como em quase tudo na vida, não sou aficionada de radicalismos, pelo que tanto sururu em torno do que considero um não-assunto me anda, no mínimo, a enjoar, sobretudo pela forma enviesada como tem sido abordado.
 
Quando ingressei no Ensino Superior, mais ilusionada (perdoai-me o "espanholismo") do que iludida, Coimbra foi a cidade escolhida. Sabia de antemão que em mais nenhum ponto do país a tradição se vivia como lá. Sim, sonhava com a capa e a batina. Fui praxada, fiz figuras ridículas, e ri. E ri. Ri muito. Quando olho para trás e rememoro esses dias não me lembro de jamais em tempo algum ter sentido medo, ter sido humilhada ou de ter sido sujeita a alguma prática que ofendesse a minha integridade ou tivesse posto em causa a minha saúde física ou mental. Quando muito era eu que dava com eles em doidos! No ano seguinte praxei, confesso que com menos entusiasmo do que aquele com que tinha sido caloira. Desfilei no Cortejo. Despedi-me de Coimbra quando os primeiros raios de sol da madrugada despontavam pondo fim a uma Queima, para mim, inolvidável.
 
Depois ingressei no mundo do trabalho. Fiz parte de equipas de que, malgrado as ovelhas ronhosas do costume, gostei imenso. Fiz amigos para a vida. Fui vítima de uma burla espectacular de tão ínsana que foi. Acabei a trabalhar para um casal que julgava poder viver com a ostentação de Versalhes, tratando a criadagem como se ainda estivéssemos no tempo do senhor Salazar. Andei sempre à beira do limite, prestes a explodir, vivendo numa revolta constante, a suportar humilhações sucessivas, num atropelo constante de direitos laborais e regras básicas de educação. Um dia disse basta. Não me lembro de em muitas ocasiões ter respirado tão profundamente de alívio como nesse dia.
 
Hoje integro um gabinete onde me tratam como uma menina, por ser a mais nova, por serem pessoas extremamente educadas e com tacto, onde me estimam. Não preciso de estar em alerta permanente. Gosto do que faço. E gosto das pessoas que me rodeiam.
 
Se porventura hoje alguma das pessoas com quem convivo, sobretudo a nível profissional, me faltasse ao respeito fosse de que forma fosse, poderia até ser o Primeiro-Ministro em pessoa, não tenho dúvidas de que a mandava bardamerda imediatamente. O dinheiro é importante, a dignidade e a saúde mental são-no muito mais. Onde aprendi isso? Na praxe? Não. Não foi a praxe que me preparou para a vida. O que me vai preparando para a vida são os sucessivos tropeções, as desilusões, as escolhas acertadas, os acontecimentos que deixam calo e que me nos fazem evoluir. Isso também aprendi na praxe. Mas o essencial vinha de trás, de casa; reforcei-o durante; cimentei-o anos depois. A praxe serviu fundamentalmente para revelar aos outros facetas de mim que no dia-a-dia das aulas não conheciam. Mostrou-me outros lados, porventura mais ousados e mais divertidos, de colegas que eram habitualmente compenetrados no quotidiano estudantil. Alguma alminha se extraviou a gatinhar a caminho do Pratas onde nos esperava o tracadinho? Nem pouco mais ou menos. A praxe foi, para mim, uma diversão, um dos aspectos da vida académica, um dos encantos de Coimbra. Mas essa foi a minha experiência. Se me disserem que há doutores que humilham, maltratam e/ou exploram caloiros não desminto. Gente boa e má, gente com princípios e com falta deles, gente de coração gigante e gente mesquinha há-a em todos os grupos, seitas, associações, grémios, bandos, equipas, whatever. Vangloriar-se com a desgraça dos outros, reforçar o ego à custa da ignomínia alheia é uma opção pessoal, é uma questão de falta de carácter transversal na sociedade, longe de ser apanágio de doutorzecos frustrados.
 
Morreram seis pessoas naquela noite, no Meco. Os pais daqueles jovens, tomados por uma dor inexplicável, querem respostas para poderem seguir em frente. O Dux, como qualquer testemunha, tem o dever moral - porque os pais têm esse direito moral também - de prestar declarações e ajudar a apurar a verdade. Mas o "drama de faca e alguidar" termina por aí. Até prova em contrário tratou-se de um acidente. Não é provável que os jovens tenham sido coagidos à força a agir de forma menos responsável. Nunca se saberá com certeza absoluta o que aconteceu naqueles momentos fatais, mas uma coisa é certa: resistir à praxe não nos torna párias aos olhos dos outros. Da mesma forma que aderir não faz de nós carrascos. Como em tudo na vida é-nos dado escolher. Depende da formação pessoal de cada um, das suas convicções, dos seus objectivos, das suas crenças enveredar pelos imensos caminhos com que nos vamos deparando.
O que nos prepara para a vida é uma educação que começa em casa, um entorno familiar que nos transmita valores, que não nos deixe nunca sermos grandes à custa dos outros. Da mesma maneira que durante o Liceu tinha amigos que fumavam, que bebiam, que experimentavam drogas sem nunca aderir a grupinhos por imposição social, aderi, em consciência, à Praxe de Coimbra, sem pressões, sem ir atrás da manada, porque entendi que aquela era mais uma forma de estar com os amigos e de socializar, de viver Coimbra, sem fundamentalismos, de forma saudável.
 
O tratamento que estamos a dar a este assunto - mediatizado à força de falta de notícias que o sejam de verdade - revela, uma vez mais, o material de que somos feito enquanto povo. Não serão tão obtusos os que apontam o dedo sem conhecer a essência da Praxe como aqueles que, fazendo parte dela, a deturpam com práticas violentas e que envergonham o Código? Deixemo-nos de generalizações, deixemos de falar de realidade que desconhecemos. Só há uma maneira de proteger os nossos filhos [e mesmo dotando-os dessas ferramentas há tanta coisa que pode correr mal!]: fortalecendo-lhes o carácter com exemplos, ensinando-lhe o respeito pelo próximo.
 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Liberdade: é essa flor que nunca desespera no jardim da perpétua primavera." *

A última pedalada do ano, no dia 29 do ano velho, levou-me até aqui. Vivi uma Primavera em Dezembro. Lá fora floresciam as primeiras plantas e em mim a esperança renovada de um novo ano, cheio de infinitas oportunidades para me cumprir.
 



* Poema de Miguel Torga

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O que se segue?

Em 2013 aprendi.
 
Aprendi a fazer coisas novas, novas técnicas, novas formas. Aprendi a trabalhar com novas dinâmicas e em novas circunstâncias.
 
Aprendi a cair de bicicleta com muito mais estilo, a controlar a respiração nas inclinações longas para me poupar a esforços, a fazer subidas totalmente em pé, a descer com mais técnica.
 
Aprendi a ouvir o meu corpo e a conhecer-lhe os limites. Aprendi que quando começo a pensar em laranjas é porque estou a ficar desidratada (esquisitices minhas!). Aprendi que o corpo trabalha mas a mente é que controla.
 
Aprendi a consertar uma persiana, a improvisar escadotes para mudar lâmpadas, a limpar o filtro da máquina de lavar.
 
Aprendi a fazer saladas deliciosas, a apreciar o sabor gelado de uma cerveja num dia quente.
 
Aprendi a marchar nos Santos (tentei, vá).
 
Aprendi a amar Lisboa.
 
Aprendi a não me importar que me olhem de lado quando me surpreendem na rua a trautear músicas de Natal (entre outras). O ar é de todos: ide mas é chatear o Camões, gente com ar carrancudo!
 
Aprendi a relativizar. Irritei-me imensamente. Barafustei como nunca. Reclamei até à exaustão (nomeadamente com a CP). Fiz birras monumentais. Cultivei, por assim dizer, o meu "bom" feitio. 
 
Aprendi a deixar os problemas à porta de casa, junto com a lama dos sapatos sacudidos no tapete.
 
Aprendi a rir-me de mim mesma, a divertir-me com as desventuras que, inevitavelmente, pautam os meus dias, a tirar partido do inusitado.
 
Aprendi que não é só nas adversidades que temos de nos revelar fortes. Ser feliz exige coragem. Ser feliz por inteiro, ainda que apenas por momentos, implica não ter medo nem hesitar. Ser feliz dá um trabalho do caraças! Podemos fingir sorrisos e boa disposição, mas não o brilhozinho nos olhos de quando estamos de bem com a vida.
 
Aprendi que há sempre lugar na nossa vida e no nosso coração para mais uma pessoa, para várias pessoas, com que nos formos cruzando, com quem nos identifiquemos, que nos façam bem.
 
Aprendi que os amigos se conquistam, se mimam, se preservam a cada dia. Aprendi algumas pessoas, prestando-lhes mais atenção, deixando que (se) me ensinassem.
 
Aprendi que nada se compara ao sangue, ao amor incondicional da família que me foi determinada pela genética.
 
Aprendi a lidar com a morte com uma perspectiva completamente diferente. Aprendi a aceitar – tanto quanto possível – o término de um ciclo, a inevitabilidade do fim; entendendo que quando cumprimos a missão que nos foi confiada podemos partir em paz.
 
Aprendi que nascemos e morremos sozinhos, por mais pessoas que nos rodeiem. Aprendi que há caminhos que percorremos a solo, sabendo-nos respaldados por quem nos quer bem.
 
Aprendi que a vida é feita de ciclos. De ciclos que precisamos de experienciar para alcançarmos novas etapas de forma mais madura. Talvez a partida da D., daquela maneira, que apesar de esperada me apanhou de surpresa, me tenha servido para aprender a viver a doença e a morte da Avó com tanta serenidade. Talvez as decisões que achava terem sido erradas me tenham trazido até aqui, depois de curvas e contracurvas, de muitos ziguezagues, mais inteira e mais consciente do que consigo fazer, de que fibra sou feita. Talvez ainda me esperem, num futuro, dias ainda mais duros do que os que já vivi. E que por lhes ter sobrevivido me ensinaram quem sou. É possível que graças a isso eu saiba futuramente encarar os dias maus como se fossem apenas menos bons.
 
Aprendi a não dar nada como certo. Aprendi que tudo é perecível e que não há certezas absolutas. E aprendi que, por isso mesmo, é preciso desfrutar de cada dia, tirar partido de cada momento.
 
Em 2013 aprendi. (Re)Aprendi a ser Feliz.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal é...

... a D. Imelda a ensaiar-nos para a peça da festa da escola. Estrear roupa nova no dia 25. Rever os tios e primos migrados. Marcar encontro com os amigos no Madeiro. Ficar com o badalo do sino na mão enquanto se toca, ao despique com a aldeia vizinha, a anunciar o nascimento do Menino. Beber chocolate quente feito pela Avó. A refeição mais despojada mas a mais deliciosa do ano: (para mim) só bacalhau, batata, azeite, couve e ovo à mesa. A mana a devorar bolo-rei e o pai a entupir-se com Ferrero Rocher. Andar pela casa, umas semanas antes, a esgaravatar todos os recantos para descobrir os presentes. Limpar a lareira antes de ir dormir para o Pai Natal poder descer. Ir à Missa do Galo com as mãos "safurnadas" e atrever-se a fazer uma leitura nesses preparos. Adormecer à lareira embalada pelas vozes de quem sabemos que nos quer bem. Ficar com o coração quentinho quando percebemos a alegria de quem desembrulha o nosso presente. Um pinheirinho verdadeiro, enfeitado com luzinhas de vidro, Pais-Natais e pinhas de chocolate. Um presépio com musgo fofinho apanhado por nós. A casa da Tia engalanada com luzes, árvores, coroas, renas, velas e fitas. A mana, pequenitita, a correr rua afora, de pijama e pantufas, a regressar de casa da Avó, arrastando um saco maior do que ela, carregadinha de prendas que o Menino Jesus nos deixou. Aprender a viver a quadra com o vazio que Nos deixaste no peito. Sorrir sem motivo e trautear musiquetas nataleiras só porque nos damos conta de que temos tanta gente na nossa vida a quem queremos bem, que cuida de nós... E hoje, qualquer que seja o dia, é Natal e vamos estar juntos.
Festas Felizes minhas pessoas!