Está uma caloraça de derreter os untos (como diria o Eça). Eu, de bochecha corada do afogueamento causado pela tentativa de manter a pose montada numas sapatecas altas, a arrastar duas malongas pesadas. Lá dou com um banquinho à sombra onde me sentar a descansar as ossadas. Abro a minha lancheirinha. Boa!, trouxe um iogurte, esqueceu-se-me a colher. Opto pela bolinha integral com marmelada. Este pão é daqueles horríveis (desculpai-me sudaneses, mas há pão horrível, sim!) que deixa farinha nas bigodaças. Estou nestas lindas figuras quando uma estampa alta, morenaça e para lá de espadaúda se senta ao meu lado, a comer um gelado. Estou esganada e cheia de calor. Não sei se me atire primeiro ao moço se ao Solero. Mas, malgrado os meus sorrisinhos amarelos, bem sei que não há primeira impressão que sobreviva a este cenário de cara vermelhusca e enfarinhada! São quase horas, entro no comboio. Destila-se lá dentro. Acabo de me sentar, fecho os olhos (que bonito era o moço pah) e quando os volto a abrir tenho uma baleia encalhada no banco contíguo. Universo, baby, grita mais alto que não te oiço!!
segunda-feira, 14 de julho de 2014
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Já ganhei o dia! #3
«Mais ninguém conseguia dizer isto desta maneira! Tu devias ser condecorada, c@r@lh#!»
terça-feira, 8 de julho de 2014
Para o L., com um beijinho de Parabéns.
Roubado ao Professor Girão. Para dedicar ao meu L.V., também ele um ser humano excepcional e um grande professor.
«Crónicas de Viagem
Sou professor, sim senhor!
-“Olá, Maria! Está tudo bem contigo?”
-“Está Setôr!”
Nem sequer levantou a cabeça, naquela quarta-feira à tarde, em que não há aulas e, na biblioteca da escola só ficam, normalmente, alunos a jogar nos computadores, ou algum mais aflito. A Maria estava sentada junto a uma janela, num canto onde os livros se espalhavam pelas duas mesas seguidas. Continuava a escrever sem me olhar. Estas rugas e estes cabelos brancos não são meras opções estéticas, são mesmo por ser velho! Estranho…muito estranho!
Aquele ar de carracinha, alegre nos seus dez anos pequeninos no corpo e enormes na ternura, que nunca se senta sem vir ter comigo à secretária, enquanto tiro os livros da saca, tocando-me, mesmo que não me apeteça aturá-la, não estava ali.
Algo de mal se passava com a minha Maria!
-“Ó rapariga, estás com os azeites?!”
Não levantou os olhos, mas não denotava zanga no olhar.
Uiiiii…estou feito ao bife! Há mer%$ no beco! Pensei eu, estranhando o silêncio.
Sentei-me numa das mesas, incomodando de propósito, olhei-a de cima, ergueu a cabeça, olhou para mim, em silêncio, com aqueles olhitos tão lindos e tão tristes, naquele dia, tão tristes mesmo…!
Incomodou-me mas não me fez perder a calma.
-“Maria, o que estás a fazer?!”
-“Estou, Setôr, a fazer os trabalhos de casa. Já fiz os de Matemática, vou fazer os de Português.”
-“Mas, Maria, os de Português são para sexta-feira e já os tens desde a semana passada!”
-“Pois tenho, Setôr!”
-“Então, porque não os fizeste no fim de semana?!”
A tristeza invadia aquela cabecita e os olhos deixavam-na ver bem demais. Uma criança a sofrer, a minha Maria!
-“Sabe, Setôr, tive de andar a mudar as minhas coisas para a casa da minha mãe…”
Os olhos já não estavam a brilhar por ser criança, brilhavam das lágrimas que tentava conter.
Ai…sorte a minha! Pensava eu, entre a calma para resolver a situação e a revolta por haver crianças a sofrer.
-“Mas, Maria, o que se passou?”
-“Sabe, Setôr, aquelas coisas dos adultos…?!” Aqui já chorava…ela a verter lágrimas, eu a engoli-las.
-“Sim, continua…”
-“ A minha mãe e o meu pai separaram-se!”
-“Maria, faz os trabalhos de Português só para segunda-feira, tens todo o fim de semana”.
-“Mas, o professor vai ralhar-me!”
-“Maria, o professor sou eu…”
Sorriu…
Na aula seguinte, tinha uma dúvida, a Maria. Meteu o dedo no ar e…muito de repente:
-“Avô…”
Calou-se, de imediato!
Eu, disse-lhe:
-“Maria, ok…! A partir de hoje, não me chamas mais Setôr! Chamas-me sempre avô!”
Assim foi.
Hoje, a mãe da Maria veio matriculá-la no sexto ano, cumprimentou-me. Perguntei-lhe de qual dos meus meninos é a mãe.
Respondeu-me, com um sorriso de ternura:
-“Da Maria, a sua neta!”
Ganhei o dia…obrigado Natureza!»
Neste dia especial, um abraço daqueles tão nossos.
Sou professor, sim senhor!
-“Olá, Maria! Está tudo bem contigo?”
-“Está Setôr!”
Nem sequer levantou a cabeça, naquela quarta-feira à tarde, em que não há aulas e, na biblioteca da escola só ficam, normalmente, alunos a jogar nos computadores, ou algum mais aflito. A Maria estava sentada junto a uma janela, num canto onde os livros se espalhavam pelas duas mesas seguidas. Continuava a escrever sem me olhar. Estas rugas e estes cabelos brancos não são meras opções estéticas, são mesmo por ser velho! Estranho…muito estranho!
Aquele ar de carracinha, alegre nos seus dez anos pequeninos no corpo e enormes na ternura, que nunca se senta sem vir ter comigo à secretária, enquanto tiro os livros da saca, tocando-me, mesmo que não me apeteça aturá-la, não estava ali.
Algo de mal se passava com a minha Maria!
-“Ó rapariga, estás com os azeites?!”
Não levantou os olhos, mas não denotava zanga no olhar.
Uiiiii…estou feito ao bife! Há mer%$ no beco! Pensei eu, estranhando o silêncio.
Sentei-me numa das mesas, incomodando de propósito, olhei-a de cima, ergueu a cabeça, olhou para mim, em silêncio, com aqueles olhitos tão lindos e tão tristes, naquele dia, tão tristes mesmo…!
Incomodou-me mas não me fez perder a calma.
-“Maria, o que estás a fazer?!”
-“Estou, Setôr, a fazer os trabalhos de casa. Já fiz os de Matemática, vou fazer os de Português.”
-“Mas, Maria, os de Português são para sexta-feira e já os tens desde a semana passada!”
-“Pois tenho, Setôr!”
-“Então, porque não os fizeste no fim de semana?!”
A tristeza invadia aquela cabecita e os olhos deixavam-na ver bem demais. Uma criança a sofrer, a minha Maria!
-“Sabe, Setôr, tive de andar a mudar as minhas coisas para a casa da minha mãe…”
Os olhos já não estavam a brilhar por ser criança, brilhavam das lágrimas que tentava conter.
Ai…sorte a minha! Pensava eu, entre a calma para resolver a situação e a revolta por haver crianças a sofrer.
-“Mas, Maria, o que se passou?”
-“Sabe, Setôr, aquelas coisas dos adultos…?!” Aqui já chorava…ela a verter lágrimas, eu a engoli-las.
-“Sim, continua…”
-“ A minha mãe e o meu pai separaram-se!”
-“Maria, faz os trabalhos de Português só para segunda-feira, tens todo o fim de semana”.
-“Mas, o professor vai ralhar-me!”
-“Maria, o professor sou eu…”
Sorriu…
Na aula seguinte, tinha uma dúvida, a Maria. Meteu o dedo no ar e…muito de repente:
-“Avô…”
Calou-se, de imediato!
Eu, disse-lhe:
-“Maria, ok…! A partir de hoje, não me chamas mais Setôr! Chamas-me sempre avô!”
Assim foi.
Hoje, a mãe da Maria veio matriculá-la no sexto ano, cumprimentou-me. Perguntei-lhe de qual dos meus meninos é a mãe.
Respondeu-me, com um sorriso de ternura:
-“Da Maria, a sua neta!”
Ganhei o dia…obrigado Natureza!»
Neste dia especial, um abraço daqueles tão nossos.
sábado, 5 de julho de 2014
Ser mãe, ser mulher, ser pessoa, ser eu.
Eu costumava dizer a propósito de estar desempregada que só que lá está é que sabe o que custa. Maneiras que nem me atrevo sequer a supor que sei o que é ser-se mãe sem nunca o ter sido e muito menos o que é perder um filho sem nunca ter tido nenhum. Só quem lá está é que sabe! Mas não me considero menos mulher por isso e muito menos uma pessoa mais pobre ou menos rica, se preferirem. Há muitas formas de Amor, sendo o maternal apenas um deles, talvez o mais completo, por, como commumente se diz, "se passar a ter o coração fora do peito". Admito a adoração com que as pessoas falam da sua prole e das proezas das suas criancinhas. Eu cresci numa família que quase se pode considerar numerosa e adoro miudagem. Estou numa fase anti-maternal, não penso em ter filhos num futuro imediato mas confesso que já vivi uma época em que gostaria muito de ser mãe. Acontece que a vida dá muitas voltas, leva-nos para caminhos que nunca suspeitámos vir a trilhar e como tal neste momento não é uma das minhas ambições próximas. Em todo o caso, gostaria de sublinhar que, não obstante nunca ter parido ninguém, talvez saiba melhor do que muitas mães o que é ter filhos e ser responsável por outra pessoa que não nós, e viver em função disso e fazer dessa pessoa a nossa prioridade. Não é à toa que se diz que a mãe não é a que pare mas a que cria.
Já por várias vezes tinha pensado nisso e agora, com o caso mediático recentemente ocorrido, novamente me voltou à ideia este ponto. Eu acredito que as pessoas vêm ao mundo para cumprir missões, para se realizarem. Com a morte de alguém a quem queremos profundamente morre uma parte de nós. Sei do que falo. É real. Mas há, para além disso, tudo o que essa pessoa nos deu, o modo como nos marcou e como viverá para sempre em nós. Há para além disso, mais importante ainda, tudo o que nos falta por viver a nós. Sobreviver à morte de um filho deve ser (suponho eu que não tenho filhos) impensável, no mínimo. Mas não deve ser impossível. Tal como eu vejo as coisas, antes de tudo, existimos nós. Nascemos e morremos sozinhos, sempre. Não temos de viver sozinhos, nem só para nós, mas deveremos ser nós o nosso motivo para viver. Talvez esta crueza da minha visão se deva a um facto simples e no entanto tão complexo: levei 32 anos a dizer isto, mas hoje sinto-o e é a verdade com que vivo: eu sou a pessoa mais importante da minha vida. E, em última análise, apesar de todos os Amores que me batem fora do peito, o Amor por mim deve ser sempre o fio que me guie. Oxalá nunca tenha de vir a reler, com o coração desfeito e sem rumo, o que hoje digo e que a alguns parecerá tão leve, mas somos todos seres únicos e insubstituíveis, com uma missão, com uma vida, individuais. E até que se cumpra o nosso destino final acredito que a cada dia devemos abraçar alguém, dar-nos a alguém, receber de alguém. Mas, também, cumprir-nos para além dos outros, por nós e para nós e só então, plenos da grandeza do dom da Vida, sermos em função dos outros, para os outros, porque não somos nunca donos de ninguém.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Dicionarizar #6
Filhos únicos, tal como pessoas únicas, somos todos! Eu não sou a única filha dos meus pais, mas sou, como a minha irmã, uma filha única.
O adjectivo anteposto ou posposto ao nome faz toda a diferença, gente. Um bom truque é pensarem no caso da "rapariga boa" e da "boa rapariga".
domingo, 29 de junho de 2014
Pequenas grandes maravilhas deste "jardim à beira-mar plantado". #5
Aquelas batatinhas fritas sabem-me às que a mãe faz em casa. E a maionese... bem, a maionese é uma coisa do outro mundo.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Saga de uma vida doméstica muito pouco domesticada. #7
Aqui a brasa esteve a pontos de passar a abrasada. Detectaram uma fuga de gás no prédio. Acabou tudo em bem. Nem outra coisa era de esperar estando nós em Portugal! Foram só três dias a tomar banho em água fria e a comer cereais. Normal. Ainda pensaram resolver logo o problema mas isso seria tipo... eficiente, e a empresa tem uma reputação a manter!
quarta-feira, 25 de junho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
terça-feira, 17 de junho de 2014
A selecção somos todos nós.
E aquelas pessoas que mal conhecemos e que mal nos conhecem, mas que fazem muitos filmes à nossa volta, mandam sms e recadinhos e depois quando confrontadas de viva voz respondem que não têm nada para falar connosco? Estou em crer que sofrem mais ou menos da mesma maleita da nossa Selecção Nacional: falta de tom@ tes na hora da verdade! E assim, pessoas, assim fica difícil isto andar para a frente porque com a cabeça enfiada na areia temos menos tendência a conseguir ver o que se passa à superfície, onde as coisas de facto acontecem. Por outro lado há a benesse de me poupardes os ouvidos a essas vozinhas histéricas.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Saga de uma vida doméstica muito pouco domesticada. #6
É só a mim que, ali a meio caminho entre o armário e o fogão, me dá vontade de começar o dia a jogar Mikado no chão da cozinha?
Vi eu com estes dois olhinhos! #9
Chegados ao topo de uma subidita numa Serra deste nosso Portugalinho, encostamos a bicicleta, sentamo-nos a repor energias e a descansar as vistas, contemplando, lá longe, a praia. De repente (em má hora o fiz!) desvio o olhar. Escuso-me a tecer comentários. Salta, literalmente, à vista!
Primeiramente supus que o protector solar com que besuntei a cara tivesse escorrido para os olhos causando-me lesões graves. Esfreguei-os e, para mal dos meus pecados, ficou tudo ainda mais nítido. Depois pensei que estava a delirar por causa do esforço da subida e afligi-me cuidando que seria falta de oxigenação. Por fim, depois de uma análise cuidada, conclui que quem apanhou demasiado sol na moleirinha não fui eu! Uma legging toda ela transparente, cuequeco todo ao léu... Dizer que adoro seria pouco!
terça-feira, 10 de junho de 2014
Vi eu com estes dois olhinhos! #8
A ideia era sair de lá acompanhada, no mínimo, de dois moços garbosos, para me ocupar (deles) durante o fim-de-semana. Não vi nada que me enchesse o olho. Talvez porque, à primeira vista, os cifrões me tenham ferido demasiado a retina.
Em compensação maravilhei-me com os prodígios da imaginação lusa...
segunda-feira, 9 de junho de 2014
domingo, 8 de junho de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Vi eu com estes dois olhinhos! #7
Primeiro achei que era uma versão "Madrinha das Marchas" [bairros da capital: estai à vontade para copiar a ideia!] mas analisando melhor trata-se de uma inspiração resgatada à infância, aos saudosos tempos da escolinha.
Descubra as diferenças!
Modelo 1: Borracha Maped.
Modelo 2: Maria.
Não, eu não troço só dos outros. Sou a primeira a rir de mim própria porque, graças a Deus, posso não ter bom gosto nem ser fashionista mas sentido de humor é coisa que não me falta!
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Sou tão burrinha. Sou uma pessoa de fé, queria eu dizer.
Maria para o senhor Jorge (motorista do estaminé):
Desculpe incomodar, mas já que vai à oficina levantar o carro teria a amabilidade de perguntar aos senhores se sabem onde posso mandar consertar a minha chave do carro toda XPTO que tem aqui esta pecinha lascada? Tenho medo que deixe de funcionar a qualquer momento porque tal como está pode encravar dentro da ranhura. Agradeço-lhe imenso.
Senhor Jorge, todo prestável:
Com certeza, menina Maria. Sem favor. Não custa nada. Fique descansada que já vou ver em algum stand onde pode tratar disso.
Eu bem estranhei quando o estafermo do homem regressou, passados apenas dez minutos, todo risota, e me entregou a chave.
Menina Maria, não ligue aqui a este espacito que sobrou na pecinha. Acho que assim como está vai funcionar. Levei-a ali ao sapateiro e puseram-lhe uma cola preta, especial, que eles lá têm. Está um brinquinho, diga lá que não?!
Porquê Senhor do Céu, porquê? I should have known better! Porque é que eu ainda acredito que o portuguesinho não tem uma tendência inata para adoptar sempre a Lei do Desenrasca???
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