quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lá, na santa terrinha...

«Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra. Para morrer, toda a terra: para nascer, Portugal, para morrer, o mundo.»
Padre António Vieira, Sermão de Santo António, 1670



Há dias em que chego a casa. À casa onde cresci, onde vivi metade da minha vida. À casa a que conheço cada recanto, pese embora o pai teime em mudar permanentemente as paredes de sítio. À casa onde posso andar às escuras sem tropeçar em nada porque sei o lugar de cada objeto. À casa onde os cheiros me são familiares. À casa de onde parece que nunca saí por mais longas que se façam as ausências. À casa que há-se ser sempre a minha, dos meus pais e da mana. À nossa casa.
 
Há dias em que penso nas voltas da vida e aonde elas já me levaram e sinto saudades da casa, espaço físico e da casa, espaço afectivo. Nesses dias apetece-me voltar. Depois... depois reencontro pessoas da minha geração (como a malta entradota gosta de dizer). Ouço-as falar da vida, dos casamentos, dos filhos. Insistem uma e outra vez que de todas as pessoas do nosso ano são as únicas que casaram e têm filhos, com um indisfarçado orgulho por terem assentado arraiais. A avaliar pela insistência nos temas - filhos e casamentos - creio, melhor: sinto, que olham para mim com pena, como se a minha opção de vida me tenha sido imposta e implique solidão. Não passar pelo altar e pelas dores do parto equivale, no sítio de onde venho e para a tribo que me viu nascer, a uma sentença e a um estigma. A esta altura da vida era  suposto já se ter a vida para lá de encaminhada. E encaminhada não significa, para eles, somente ser-se feliz e estar de bem com a vida. Não! Implica ter casa, carro, marido, descendência, emprego, pouso fixo. Aos olhos deles, eu bicho-careto, dada a poucas confianças e completamente dependente da minha liberdade, sou a doidivanas que estoira os parcos rendimentos (consoante a fase da vida em que me encontro) em viagens, bicicletas, livros e bugigangas que não interessam a ninguém.
 
Há dias em que me apetece voltar. Depois reencontro pessoas que cresceram comigo, vejo o que fizeram da vida, o que a vida fez delas; não tomámos rumos melhores nem piores uns do que os outros, apenas distintos. Compreendo, por fim, que o melhor que me poderia ter acontecido foi sair, fugir das amarras do comodismo, dos clichés, do que é suposto fazer-se e do que é esperado que façamos. Sim, há dias em que me apetece tanto voltar. Mas a minha casa são as minhas pessoas. E essas vão comigo aonde eu for, arranjaremos maneira de estar juntos sempre. Para já a minha casa, essa, a de quatro paredes, numa aldeia perdida no mapa, vai continuar a ser minha apenas esporadicamente, quando o coração me pede sossego e paz. Para já a minha casa continua a ser o mundo, todas as pessoas que me estão destinadas e que ainda me falta conhecer e todos os sítios que ainda pisarei nestas andanças da vida.

 
 

2 comentários:

tia céu disse...

Devias pensar seriamente em escrever - passando somente a ser "escritora".gostei muito. beijos

Unknown disse...

Não me posso fiar de vós: sois suspeitos! Tendes o bom gosto de ser família e de gostar de mim. Maneiras que a imparcialidade desta opinião está fortemente comprometida. Mas muito obrigada pelo comentário elogioso. Tenho a quem sair talentosa. ;-)